abril 19, 2004

The Lurker spinning (ou 2S2 2P6 - eletrovalência -2, nº atômico 55)

Admite-se que determinados fins de semana sejam mais sociais que outros, mas este foi de lascar o cano. Sábado foram dois almoços e um jantar. Sim – sai-se de um almoço para ir almoçar de novo... claro. E não se entende a fome na Somália depois. No domingo almoço e jantar fora. Aliás, o domingo parece ter sido dedicado à Universidade, porque a quase totalidade dos presentes tinha relação com a UnB e o jantar foi na casa do meu orientador.

Resultado: estou “embebido” em vinho até agora. É engraçado, por falta de palavra melhor, verificar a “evolução” da ressaca, que leva cada vez mais tempo para sair do meu pé. Para contrapesar comecei a “evoluir” a qualidade do ingerido mas nem isso está segurando mais a onda. Explica-se: aos 18 toma-se até “Old Eight” (oldeio-te como se diz em Salvador) e as garrafas de vermute seco se amontoavam no altar de Baco sem maiores conseqüências. Elementos líquidos impensáveis, como Keep Cooler e outras misturas mais exóticas também não criavam caso. Aos 25 o bom e velho Santa Helena começa a não amanhecer tão bem, não é a primeira tequila “carta blanca” que passa incólume, Steinheger e outros destilados servem somente se forem realmente bons.

Aos 30 nem o Chivas 18 anos está livrando mais a cara da manhã do dia seguinte e a maldita permanece fazendo companhia até o meio da tarde. Originalmente ia embora após um par de horas de amolação. Se continuar desse jeito, mais dia menos dia vai embolar uma na outra, colando os fins de semana. Ou, quem sabe, quem está certo é o Jaguar. In vino veritas, mas isso já está passando do limite.

Me lembro de uma vez que saí com um grupo de colegas do trabalho e fomos ao 2º Clichet, onde 18 doses de Xiboquinha foram sacrificadas pelo Franco e por mim. Ir trabalhar no outro dia foi um desafio, principalmente quando você acorda ainda estuporado. Engraçado foi encontrar a Maria "Mussarela" Lúcia que vira-se para mim, em tom choroso e diz:

- Eu briguei com você!
- E sobre o quê? - foi minha resposta... (nove Xiboquinhas na cabeça e você queria o quê? Coerência?)

Soube depois que a discussão foi sobre política e toda em inglês (barraco de gente fina é outra coisa).

The Lurker Says: “Eu odeio segunda-feira” (Garfield – by way of Jim Davis)

abril 14, 2004

The Lurker Marathon (ou Cadê o freio dessa coisa?)

Ok, então tá. Hoje foi o cúmulo da bagunça linguística. Ter por quatro horas, na mesma mesa, um argentino e um francês e ambos resolverem falar o inglês "lá deles" foi para pirar na batata. Tudo bem, todo mundo se entendeu no final, a "cordialidade" foi a tônica, mas eu perdi o rumo lá pelas tantas, pois falava ora português (portunhol, por escolha do interlocutor) com o primeiro, ora francês/inglês com o segundo. Nas despedidas, eu já não sabia o que estava falando. E não era o único.

Cabem esclarecimentos para as contingências. Nos últimos tempos têm aparecido umas atividades bem complexas para que realizemos. Estranhamente, todas parecem ser urgentes até o exato momento em que estão prontas, quando então passam a ser assessórias a outras correrias. "Plus ça change, plus c'est la mêmme chose" eu diria, pois isso parece ser doença ocupacional atualmente no governo. A mudança de rumo instantânea parece não conhecer qualquer princípio de inércia (quem dirá cinética e equilíbrio). Em uma reunião com o presidente de uma autarquia bastante representativa em um ministério, ouvi que "...o presidente [da República] está pautando a agência!". Ou seja, os executores tem menos acesso às informações técnicas do que o alto escalão. Sem comentários - tire suas conclusões.

Então, em homenagem as reuniões da semana e aquelas, mais densas e pesadas, que me esperam até sexta-feira, The Lurker Radio inclui em sua seleção:

HAVE YOU EVER SEEN THE RAIN
Spin Doctors
J.C. Fogerty

Someone told me long ago
There's a calm before the storm
I know
It's been coming for some time
When it's over so they say
It'll rain on a sunny day
I know
Shining down like water

I wanna know
Have you ever seen the rain?
I wanna know
Have you ever seen the rain?

Coming down on a sunny day
Yesterday and days before
Sun is cold and rain is hard
I know
It's been that way for all my time
Till forever on it goes
Through the circle fast and slow
I know
And it can't stop I wonder

I wanna know
Have you ever seen the rain?
I wanna know
Have you ever seen the rain?

The Lurker says: "Do, or do not. There is no 'try'."
Master Yoda (The Empire Strikes Back)

abril 11, 2004

The Lurker de volta a Delfos (ou Credo in uno Deum, pater onipotens)

Considerando o novo visual, achei que valia a pena um "re-post" de apresentação. Vamos lá.

Maio 25, 2003

The Lurker and The Lurker (ou Tecum Nosce)

Sou um otimista por natureza. Acho que tudo vai dar certo e acredito, erradamente, que coisas ruins não acontecem às boas pessoas. Creio no trabalho e na dedicação como forma de ascensão social. Fujo de gente preguiçosa, mas reconheço a necessidade do ócio (criativo ou não). Acredito que o caminho mais interessante normalmente é o mais difícil. Sou áries com ascendente em capricórnio, o que dá os dois cabeçudos do zodíaco num cara só. Nem sempre sou fácil de lidar e reconheço isso. Peco mais pelo excesso do que pela falta. Às vezes me arrependo. Outras não.

Morro de medo de dar com a cara na parede. Nem por isso deixo de correr riscos o tempo todo. Já caí do cavalo, mas monto de volta tantas vezes quantas for necessário. Já fiz escolhas profissionais erradas. Costumo morder mais do que posso mastigar, mas não aprendo apesar de tudo.

Sou amigo de meus amigos. Eles sabem quem são e o que isso significa. Sou verdadeiro, leal, franco e sincero. Digo na cara se achar que é necessário, mesmo que doa. Me mordo se não falar e descobrir que fazia diferença. Vou direto ao ponto, detesto filigranas e rodeios sociais.

Já fui guia turístico, gerente de restaurante, consultor e professor de informática (em domicílio). Hoje tenho uma equipe de avaliação para coordenar e nunca me diverti tanto no trabalho. Estudei música, economia, e psicologia. Fiz graduação, mestrado, iniciei e espero concluir o doutorado. Tenho grande facilidade para falar outras línguas e isso já me abriu várias portas.

Dizem que tenho um senso de humor mordaz e ácido. Gosto quando consigo ser engraçado ou divertido. Perco a piada para manter o amigo. Falo alto quando discuto política ou religião e tenho posições bastante pessoais sobre estes assuntos. Detesto mediocridade e grosseria.

Tenho uma cicatriz entre os olhos, presente de meu eu criança que jogava futebol com lata de refrigerante feita de folha de Flandres.

Gosto de queijo forte, carne vermelha, vinho denso, tabaco de cachimbo e martini seco feito com Wodka Absolut. Não fumo cigarros e detesto o cheiro. Bebo socialmente e a idade tem me tornado muito social. Nunca bebo até cair, sei quando parar e não sou inconveniente. Odeio ressaca e ela me odeia.

Sou amante de muitos vícios, mas o único que cultivo é a vida. Tenho pouco respeito por gente que depende de química. Não tenho qualquer respeito por quem é incapaz de controlar suas vontades. Não suporto gente fútil e rebeldes sem causa.

Já rodei um pouco pelo mundo, não tanto quanto gostaria. Estive em todos os estados do Brasil exceto quatro na região norte. Conheci meia Europa, o que deixa ainda metade para visitar.Sou louco pela França e espero voltar lá muitas vezes. Não faço a menor questão de voltar à América, a não ser que seja para Nova Iorque e com a companhia certa. Acho o americano uma besta quadrada, mas já me provaram que podem ser boa gente. Talvez um dia vá a São Francisco. Adoro Santiago de Compostela. Detesto Salt Lake City.

Tenho tendinite no braço direito, presente de meu eu adolescente e de horas de jogo no computador. Fiz um acordo com ela: trato-a com respeito e ela finge que não está lá.

Gosto de frio e de neve, coisas complicadas em um país tropical. Gosto de mergulho, esgrima e tiro. Sou péssimo em esportes coletivos. Já soube dançar um dia. Adoro Victor Hugo, Júlio Verne e Alexandre Dumas. Desprezo Paulo Coelho e Lair Ribeiro. Gosto de Astor Piazzola, Mozart, Ella Fitzgerald, Tom Jobim e U2. Meu musical favorito é Les Miserábles e sei que, agora, só poderei assistir de novo em Londres. Acho que música techno é a maior perda de tempo e que o funk não vai conseguir piorar mais. Sei que estou errado quanto ao funk.

Gosto de chegar em casa. Adoro estar solto no mundo e não ter que voltar para casa. Um dia ainda vou construir uma ecologicamente correta, com cachorros, uma torre e um jardim grande com plátanos.

Acho que dinheiro é para gastar, mas economizo como um esquilo que recolhe nozes para o inverno. Acho que o poder deve ser usado em favor das pessoas. Detesto futrica, intriga e fofoca. Adoro entrevistar gente para emprego e sofro horrores quando tenho que demitir alguém. Meus olhos brilham quando vejo gente corajosa.

Me realizo falando em público. Detesto quando acho que estou fazendo as pessoas perderem tempo ou não estou dizendo algo que faça diferença. Preparo minhas aulas, mas sempre acabo improvisando alguma coisa.

Sei que não devo durar muito além dos 65, mas gostaria de viver para sempre. Corro contra o tempo para fazer desta a melhor vida que terei. Não acredito em aposentadoria, a não ser que seja a partir dos 40.

Acho que, apesar de tudo, o mundo tem jeito e quero dar meu pitaco.


The Lurker says: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses" dizeres do pórtico do templo de Apolo em Delfos.

abril 10, 2004

The Lurker “professor emeritus” (ou assim caminha a universidade)

Como vocês sabem (ou talvez não) até recentemente eu era professor ativo em uma grande universidade particular. Ativo antes, licenciado para o doutorado agora.

Em novembro do ano passado eu estava dando minha aula, cuidando de minha vida, quando entre Deming, Juran e o TQC uma aluna de outra turma, abrindo a porta, pediu-me licença para dar um aviso a seus colegas e que o dito “me interessaria” – segundo disse:

– Escolhemos os professores homenageados para a formatura... e você é um deles.

Bem, ainda bem que eu estava sentado. De onde eles tiram essas idéias? Professores homenageados, de onde eu venho, são pessoas que contribuem para a evolução de seus campos de saber, com projeção nacional e anos de prática. Não um com pouco mais de quatro anos de cátedra, e isso mesmo se somadas as experiências em diversos campos diferentes... Não me via, de maneira nenhuma, adequado ao título.

Mas a coisa foi a sério e não imaginava que fosse ser tão sofisticada no fim das contas. Pensei que a cerimônia (que foi no final do mês passado, para quem ficou curioso) fosse ser simples. Ledo engano. Toda turma devidamente becada, com direito a becas cheias de frufrus para os professores e o representante do reitor. O paraninfo foi um ex-senador da república que desistiu de seu mandato por conta de uma lista e elegeu-se deputado. Fiquei um tanto preocupado – afinal, havia uma lista de formandos e velhos hábitos demoram a morrer.

Pessoalmente, sempre achei que formaturas, como casamentos e funerais, são coisas que o vivente só deveria ser obrigado a ir em sua própria. Esta, não sendo uma exceção, foi interessante na medida em que pude experienciar a coisa acontecer pelo ângulo da mesa. Nosso deputado listeiro, comparativamente com as diversas oportunidades que tive de ouvi-lo, foi feliz, rápido e direto ao ponto. Seu equívoco foi ter citado Domenico de Masi, o italiano insano. O cara que disse que a humanidade trabalhará cada vez menos e que o “ócio criativo” é uma necessidade humana não pode ser levado a sério por qualquer pessoa que trabalhe 50 a 55 horas por semana. Se existe ócio por aí, alguém está aproveitando a minha parte!

O acontecimento realmente emocionante, para mim, foi a questão que alguns estudantes fizeram de apresentar-me à suas famílias. Em especial, alguns pais que eram bastante efusivos em seus cumprimentos. O que será que esses meninos andam falando em casa?

Finalmente, a parte jocosa do evento foi dizer, na chegada, encontrando dois ou três alunos que passaram em minha disciplina “tirando tinta”:

– Mas, peraí: eu APROVEI você?!

As expressões foram, digamos, divertidas: eles sabem... e, espero, o mercado seja capaz de saber também.

The Lurker says: Do not hire a man who does your work for money, but him who does it for love of it.
Henry David Thoreau

abril 02, 2004

The Lurker Warp Zone (ou a viagem de Gulliver às avessas)

Depois de uma semana que começa com noites na baixada fluminense você esperaria que do meio para o fim a coisa serenasse não é? Nope... E na medida que a dita se escorre e os dias são deixados para trás como marcas no calendário do ano passado, a inevitável pergunta: "Tá, e daí?". Depois de ver o pessoal sobrevivendo de teimoso voltar para a fogueira das vaidades é um choque que não há quem aguente.

Assim, em homenagem àqueles que, como eu, sofreram as agruras da pequenez humana derivadas dos poderosos e viram a honradez e a coragem nos olhos dos despossuídos, segue um interlúdio musical para encerrar a semana. E que Deus tenha piedade de sua alma.


SOLDADOS
Renato Russo
Renato Russo/Marcelo Bonfá

Nossas meninas estão longe daqui
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
Se lembra quando era isso brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira?

Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porque:
Estamos esperando.

Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Porque lutar.

Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali.

Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis

Somos soldados
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar.

The Lurker says: Despair is perfectly compatible with a good dinner, I promise you. William M. Thackeray

março 22, 2004

The Lurker e o Governo (ou Rousseau estava certo)

É preciso saber admitir quando se comete um erro. No meu caso este erro, que pode até mesmo ter sido bem-intencionado, veio causado em parte por uma perspectiva a de mudança e por uma percepção e de que os ciclos e a alternância de poderes, como os ciclos, são conseqüências naturais que acontecem até mesmo porque são necessárias.

Esta visão é mesmo um pouco romântica, pois que no Brasil tal crença não se fundamenta necessariamente na razão ou na experiência. Explico: até recentemente era possível acreditar genuinamente que um partido poderia ser efetivamente representado pelas idéias de pessoas que se propunham a encabeçá-lo. Este ponto de vista ingênuo implica acreditar que os ideais de determinados líderes serão compartilhados da integridade imaginados por seus seguidores. Isso não é verdade.

A idéia de que o governo dos trabalhadores tomaria maiores cuidados, que se comportaria com maior preocupação com os trabalhadores que representam estava errada. Assim como eu, descobriram isto ao mesmo tempo os funcionários públicos federais, estaduais, o pessoal do bingo, os portuários, os aposentados...

O pessoal de carreira federal ajudou a eleger um governo e agora se encontra alijado do mesmo, substituído por pessoas que necessariamente não dispõe do preparo para a condução das atividades que lhe eram originalmente imputadas. E, como dantes, a superlotação nos gabinetes se faz sentir: a impressão é de que até agora necessário recompensar a todos aqueles que de alguma maneira comungaram dos ideais do partido, não interessa ao onde colocá-los. Em alguns casos este procedimento resulta em contribuições interessantes por parte dos envolvidos (mais estes são raros). Na maior parte das ocorrências e dos relatos que me chegam, o que se vê é a continuação do processo destrutivo de governo iniciada por Collor.

Cabe aqui mais uma explicação: Dom Fernando I (Collor) como o chamo, iniciou processo de destruição do serviço público nacional através de uma campanha falaciosa e insidiosa que levou o povo a acreditar no inchaço da máquina do estado. É preciso ressaltar o que o Brasil tinha então o mesmo número de funcionários públicos na França, mas contava com uma população de aproximadamente três vezes o tamanho da daquele país. Não há que se dizer que o sistema era perfeito ou não possuía o defeito isso seria absurdamente ingênuo. Entretanto a assim chamada reforma do aparelho do estado apenas contribuiu para que aquelas pessoas com maior preparo e melhor entendimento do governo e o deixassem. Isso se deu pois estas eram as pessoas mais preparadas para assumir posições fora do governo.

Por seu turno, Dom Fernando II (FHC), montou novo aparato governamental, desta vez fundamentado em acordos internacionais e organismos multilaterais. Essa estrutura permitiu que pessoas de alta especialização viessem a compor o quadro do governo em tempo rápido e permitiu a igualmente que uma estrutura eficiente e barata de governo se instalasse. Eficiente porque era flexível e permitia a substituição de a troca de funcionários e com baixa produtividade e barata porque não implicava o pagamento da carga de impostos, aposentadorias, benefícios, etc. que o próprio governo se impôs.

Eis que agora chega à terceira onda o governo dos trabalhadores. Em função de uma legalidade forçada e de entraves que eles mesmos criaram, impõem agora à sociedade a perda de oito anos de conhecimento acumulado, criando um concurso para funcionários temporários nos quais os já existentes, aqueles que já dominam as atividades relativas aos processos do próprio governo, serão colocados em igual condição com pessoas que jamais realizaram as atividades e que, portanto, não dispõe desse conhecimento acumulado. Hora, parece evidente que tudo o que foi desenvolvido e aprendido por essas pessoas será perdido para a população e, com sorte, colocado à disposição do mercado. Neste meio tempo, não são realizados concursos “de verdade” para provimento definitivo das vagas tendo em vista que serão contratados funcionários temporários, nem tampouco se permite a efetivação destes. Perde-se duas vezes.

Sou culpado de minha ingenuidade. Acreditei que um governo dos trabalhadores seria capaz de enxergar essa realidade de maneira menos tacanha e mesquinha. Acreditei que um governo gerido por pessoas que sempre se opuseram à política do “é dando que se recebe”, do loteamento de cargos e da venda do Estado, não transigiria com a continuação do desmonte. Eu estava errado, bem como muitos de meus amigos, e agora o país pagará por isso. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas com certeza. E passarão muitos anos até que os equívocos de hoje possam ser revertidos.

The Lurker Says: Nam ego in ista sum sententia, qua te fuisse semper scio, nihil ut feurit in suffragiis voce melius. - Cicero (Marcus Tullius Cicero), De Legibus (III, 15)

Hmm... melhor, para a atual legislatura: You won the elections, but I won the count. - Anastasio Somoza

março 17, 2004

The Lurker e o post roubado por igualdade no sentimento.

King of Pain
The Police
Synchronicity (1983)

There's a little black spot on the sun today
It's the same old thing as yesterday
There's a black hat caught in a high tree top
There's a flag-pole rag and the wind won't stop

I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running 'round my brain
I guess I'm always hoping that you'll end this reign
But it's my destiny to be the king of pain

There's a little black spot on the sun today
That's my soul up there
It's the same old thing as yesterday
That's my soul up there
There's a black hat caught in a high tree top
That's my soul up there
There's a flag-pole rag and the wind won't stop
That's my soul up there

I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running 'round my brain
I guess I'm always hoping that you'll end this reign
But it's my destiny to be the king of pain

There's a fossil that's trapped in a high cliff wall
That's my soul up there
There's a dead salmon frozen in a waterfall
That's my soul up there
There's a blue whale beached by a springtime's ebb
That's my soul up there
There's a butterfly trapped in a spider's web
That's my soul up there

I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running 'round my brain
I guess I'm always hoping that you'll end this reign
But it's my destiny to be the king of pain

There's a king on a throne with his eyes torn out
There's a blind man looking for a shadow of doubt
There's a rich man sleeping on a golden bed
There's a skeleton choking on a crust of bread
There's a red fox torn by a huntsman's pack
That's my soul up there
There's a black-winged gull with a broken back
That's my soul up there

There's a little black spot on the sun today
It's the same old thing as yesterday
I have stood here before inside the pouring rain
With the world turning circles running 'round my brain
I guess I always thought you could end this reign
But it's my destiny to be the king of pain
King of pain
King of pain
King of pain
I'll always be king of pain


The Lurker Says: For death is no more than a turning of us over from time to eternity. (William Penn) *1644 +1718

(You´d rather be right, Mr. Penn... you´d better be right...)

março 12, 2004

The Lurker: Assim caminha a humanidade.

Eram 18h45. Faltavam quinze minutos para ele terminar a jornada de 12 horas no aeroporto . Antes de sair, mais uma verificada nos banheiros, sua missão diária. Precisava ver se tudo estava em ordem. Na verdade, a maior preocupação dele, naquele dia, era arrumar dinheiro para pagar a conta atrasada de luz. Nunca R$ 28 lhe custaram tanto. Nunca alguma coisa lhe tirou tanto o sono. Nunca nada o atormentara de tal forma.

Francisco Basílio Cavalcante — de 55 anos, cearense de Sobral, 1,62m, auxiliar de serviços gerais da empresa Masp, terceira série primária, católico praticante, casado, cinco filhos, quatro netos, morador do Céu Azul (GO), 26 anos no mesmo emprego sem ter faltado até hoje a um dia de trabalho, salário bruto de R$ 370 — é homem de honrar compromissos.

Nunca havia deixado uma só dívida acumular. Tanto é que, há três meses, comprou um sofá nas Casas Bahia e parcelou a compra em 15 longas prestações de R$ 77. Nunca atrasou um pagamento. Só a conta de luz o transtornava.

Na última inspeção pelos banheiros do aeroporto, no plantão da quarta-feira, Francisco se deparou em uma das cabines com uma bolsa de couro, em cima da papeleira. Achou aquilo estranho. Quem teria deixado lá? Assustado, resolveu abri-la. E tomou o maior susto de sua vida. Dentro da bolsa, enrolado num pacote, além de passaportes e documentos pessoais, havia uma quantia em dinheiro que seus olhos jamais viram. Nem tanto nem naquela moeda.

O faxineiro estava diante de US$ 10 mil. Ou, se preferir, R$ 30 mil. Dinheiro que, se fosse juntar do salário, sem gastar um só centavo, levaria sete anos. O cearense tremeu. Suou. Ficou pálido. Uma vida inteira passou diante dele dentro daquele banheiro.

O que fazer? Ficar com a dinheirama toda ou devolver? Se ficasse, ninguém jamais saberia. Não há câmaras dentro dos banheiros. Seria perfeito. Poderia sair dali com a vida modificada. Mas a dúvida, mesmo com a maldita conta de luz atrasada, não interferiu na sua decisão.

Francisco chamou o chefe imediato, que atende pelo nome de Valdomiro. Não, não é o Waldomiro Diniz, aquele que estremeceu o Planalto. O chefe de Francisco se chama Valdomiro Magalhães dos Santos.

De quem seria aquela bolsa? Foi um corre-corre no aeroporto. De posse do passaporte do passageiro, avisaram pelo alto-falante. Nada. O supervisor Arenor Amorim, da empresa Omni, que cuida da segurança, encarregou-se pessoalmente de achar o dono da bolsa. Varreu o lugar.

E achou. Os US$ 10 mil pertenciam ao turista suíço René Dam, que viajava em companhia da mulher. Em Brasília, faria apenas uma conexão. O casal seguia para Manaus. De tão atordoado pela perda da bolsa, o turista não ouviu que era chamado pelo sistema de som.

Orientado pelo supervisor que o encontrou, o suíço conferiu tudo. Contou as notas de US$ 100. Haja nota! E lá estavam, intactos, os US$ 10 mil, junto com os documentos. O dinheiro, devidamente declarado ao chegar ao Brasil, voltou ao dono.

Prestações em dia

O turno de 12 horas de Francisco acabara. Era hora de mudar de roupa, tirar o macacão vermelho, guardar o crachá e voltar para casa, no Céu Azul. O turista quis conhecer o homem que havia achado seus dólares. Quis lhe oferecer uma recompensa. O faxineiro não estava mais no aeroporto.

Enquanto o suíço o procurava, Francisco se dirigia à parada. No sacolejo do ônibus, além do cansaço físico, o atraso na conta de luz ainda o inquietava. Ainda bem que as prestações do sofá das Casas Bahia estavam em dia.

No início da tarde de ontem, de folga , Francisco recebeu a reportagem do Correio em sua casa. De uma humildade comovente, ele arrumava um vazamento de um cano. De chinelo e camisa branca manchada de graxa, ele explicou por que devolveu a bolsa e os US$ 10 mil do turista suíço: ‘‘Tem que ser assim, moço. O que não é nosso precisa ser devolvido’’.

Na casa de três quartos e cerâmica brilhosa, comprada com o sacrifício de 26 anos de trabalho como faxineiro do aeroporto, a vida dele e da mulher, a também cearense Raimunda Nonata Cavalcante, de 53 anos, é a prova da honestidade. E da delicadeza de uma família pobre. Ofereceu café quentinho e água de pote no copo de alumínio.

‘‘A gente já passou muita precisão, mas é honesto’’, conta ela. E comenta sobre o dinheiro que o marido achou no banheiro do aeroporto: ‘‘Se o Francisco chegasse aqui com esse dinheiro, a gente ia devolver. Um dinheiro que não é da gente não pode ser do bem. Não pode trazer felicidade’’.

Saudades do Ceará

Há sete anos, os cinco filhos de Francisco se reuniram. Decidiram que o pai estava andando a pé demais. Cansava-se demais. Cotizaram-se e compraram uma bicicleta Caloi antiga, de segunda mão. ‘‘Foi o melhor presente da minha vida’’, confessa ele.

É com essa velha bicicleta — seu único meio de locomoção, além do ônibus — que Francisco anda pela esburacada Céu Azul. Na garupa, carrega a mulher Raimunda Nonata, com quem está casado há 33 anos. ‘‘A gente passeia e vai à feira’’, revela Raimunda.

Nos planos mais imediatos de Francisco, além de pagar a conta de luz atrasada, está a aposentadoria. ‘‘Daqui a cinco anos eu aposento’’, contabiliza. E revela um sonho: ‘‘Tenho muita saudade do Ceará. Queria ir ao Juazeiro agradecer ao Padim Ciço tudo que consegui aqui’’.

Trabalhando há 26 anos no aeroporto, o faxineiro só andou de avião uma vez, em 1989. Mesmo assim porque ganhou a passagem da Aeronáutica. Foi até Petrolina, em Pernambuco. ‘‘Me senti a pessoa mais importante do mundo. Achei lindo ver as nuvens’’, emociona-se.

Sentado na velha bicicleta — colocou até roupa nova para a fotografia — Francisco responde à pergunta que todos gostariam de fazer:
— O senhor sente orgulho por ter devolvido o dinheiro?

Ele diz, com sua habitual simplicidade:
— O que eu fiz, moço, era o que todo mundo devia fazer. Se cada um agisse assim, o Brasil seria melhor.

E encerra:
— Não tem coisa melhor na vida do que chegar em casa e dormir sem peso na consciência, sem ter prejudicado ninguém. É só isso que quero pra mim e pra minha família.

Não precisa perguntar mais nada.

Publicado no Correio Braziliense em 12/03/2004

The Lurker Says: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." Ruy Barbosa.


outubro 29, 2003

The Lurker Update (Newsflash)

Para quem eventualmente tenha se interessado pelas andanças de minha amiga que se encontra "voluntariamente à disposição do mercado": ela foi vista pela última vez indo de Salamanca para Barcelona... Nada mal, nada mal. Um dia se chega lá.

The Lurker e os anglicismos (ou te cuida Pasquale C. Neto)

Hoje faremos uma singela homenagem a um diretor de certa área de certo ministério, tirado a falar idioma dos outros mas sem o menor tino para isso... Com sorte, ele voltará para sua boa e velha Sertãozinho, devem sentir sua falta por lá. Deixe os irlandeses em paz.

Segue singela demonstração de apreciação por suas habilidades linguísticas...


Samba do Approach
Zeca Baleiro

Venha provar meu brunch... saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch, eu ando de ferryboat, venha provar!
(Bis)

Eu tenho savoir-faire meu temperamento é light
Minha casa é hi-tech, toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull, hoje me amarro no Slach
Minha vida agora é cool, meu passado já foi trash

Venha provar meu brunch... saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch, eu ando de ferryboat, venha provar!
(Bis)

Fica ligado no link que eu vou confessar my love
Depois do décimo drink, só um bom e velho engov
Eu tirei meu green card e fui para Miami Beach
Posso não ser pop star, mas já sou um noveu riche

Venha provar meu brunch... saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch, eu ando de ferryboat, venha provar!
(Bis)

Eu tenho sex-appeal saca só meu background
Veloz como Damon Hill, tenaz com Fittipaldi
Não dispenso um happy end, quero jogar no dream team
De dia um macho man e de noite drag queen

Venha provar meu brunch... saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch, eu ando de ferryboat, venha provar!
(Bis)


The Lurker Says: "Última flor do Láscio, inculta e bela. És ao mesmo tempo esplendor e sepultura..." (Olavo Bilac - *1865 +1918)

outubro 15, 2003

The Lurker e o poeta

Reverência do Destino
(Carlos Drummond de Andrade)

"Falar é completamente fácil,
quando se tem palavras em mente
que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que
realmente queremos dizer,
o quanto queremos dizer,
antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas
que estão sendo expostas
pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir
sobre os seus erros,
ou tentar fazer diferente
algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega,
fazer companhia a alguém,
dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas
e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia
e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação
e saber o que fazer.
Ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência
quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém
que realmente te conhece, te respeita e te
entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos
o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos
com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar,
mais uma vez,
isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus".
Principalmente quando somos culpados
pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos,
beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo
como uma corrente elétrica
quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver,
sem ter medo do depois.
Amar e se entregar.
E aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo,
mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas,
ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta
resposta.
Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar
ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma.
Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas
vão te aceitar como você é
e te fazer feliz por inteiro .

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade,
que se petrifica,
e nenhuma força jamais o resgata".

The Lurker Says: (...)

outubro 08, 2003

The Lurker e a Matemática (ou poeminha besta para não iniciados)

"The Möebius Strip is a thing,
Which somewhat resembles a ring.
But given the strenght
To travel its lenght,
You still haven´t done anything"

(by Okie Pokie)

The Lurker Says: mais uma fugitiva do IMPA... (onde está a fita?)

outubro 07, 2003

The Lurker Advice

Há muitos anos participei de uma modalidade de serviço voluntário cuja finalidade é fornecer suporte a pessoas e situações de crise. Uma das grandes lições que tirei na ocasião foi o cuidado que se deve ter quanto a aconselhar quem quer que seja a fazer alguma coisa. A responsabilidade com o que se diz e o que as palavras causam é uma preocupação que me acompanha desde então. Deixe que a pessoa encontre seu próprio caminho.

Ocorreu entretanto que saí para conversar com uma amiga, que dizia estar sofrendo com problemas no trabalho e insatisfeita com suas atividades. Dessa conversa surgiu uma série de reflexões sobre sua atuação profissional, o que desejava fazer, e o que vinha fazendo nos últimos anos. Essa reflexão a levou a uma conclusão bastante séria: mudar de emprego. Mesmo que isso representasse um interstício na carreira - se me permitem o eufemismo.

É preciso que se diga que, de acordo com o que ela mesma relatou, as atividades que tem executado em seu trabalho realmente não são recompensadoras, em especial considerando se sua formação. Conheço-a desde o tempo da universidade, e é fato que desde então sua competência era reconhecida. Aqueles que, como eu, foram seus contemporâneos concordam que era realmente das boas alunas que o curso tinha formado. Nada mais lógico do que ela estar agora descontente a receptividade que seu trabalho teria gerado.

Mesmo considerando o duro processo seletivo para entrar na organização, diria que existe pessoa mais capacitada do que ela para essa atividade, desde que esta outra pessoa não tivesse um perfil intelectual e profissional tão desenvolvido. Em resumo, concordo com seus motivos, mas preocupo-me quando ela me diz que foi em parte em decorrência de nossa conversa que decidiu tomar novo rumo. Como aceitar essa responsabilidade?

Ela diz que passou a acreditar na possibilidade de investir na carreira por algum tempo mesmo que isso implique receber um salário menor. Note-se que o atual é realmente muito bom. Conquanto esta decisão seja de sua única e exclusiva competência, não posso deixar de me sentir envolvido, por ter colocado "pilha", mesmo que esta "pilha" não seja minha.

O que lhe contei se baseou no que efetivamente tenho implementado em minha carreira (não sou hipócrita, ao menos). Tenho certeza de minha autenticidade, na medida em que tudo que fiz foi apresentar fatos os quais eu mesmo vivi. Entretanto, acreditar que possa ter esse tipo de influência na vida de outra pessoa me causa certo desconforto. Meus pontos de vista foram, e são, fundamentados na experiência.

Minha história se ancora no que tenho feito, nos riscos que corri, minhas quedas, muitos erros e poucos acertos. As dores, receios, medos e angústias dela eram os mesmos que eu sentia a menos de um ano. Em nossas conversas, senti-me em contato com estas dificuldades e ansiedades. Acredito estar genuinamente próximo a sentimentos semelhantes.

O que fazer então? Nada. Esperar pelo melhor. Se por um lado receio pelos resultados de suas decisões, por outro não posso deixar de apreciar a reaproximação, mesmo decorrente deste estado de coisas...



Hoje foi seu último dia de trabalho...



The Lurker Says: Marrocos! Compostela! Voe!

setembro 01, 2003

The Lurker e os Taxistas (ou mobilis gratia argumentandi )

Uma coisas interessante para se fazer quando se coloca o pé fora de sua própria cidade é conversar com o pessoal que vai se encarregar de seu transporte, especificamente aquele ser antenado, que já foi conhecido pelo pomposo nome de "Chaufeur de praça". Sinesíforos profissionais, sociólogos das horas vagas, professores da escola da vida, políticos de tempo integral, sempre dão uma boa idéia do que está acontecendo aonde se chega e sua visão particular representa, freqüentemente, a de uma classe.

É possível encontrá-los de todos os tipos: o profissional cioso, o politizado, o revolucionário trotskista, o bicho-grilo-reformado, o pai de família, o solícito (estes querem lhe oferecer um serviço a mais - indicando a "boa da noite" ou alguma coisa que o valha), entre muitas outras "qualidades". Síntese das percepções da população de uma área, os taxistas são um termômetro de uma sociedade. Trata-se de um grupo policultural, etnicamente diverso e multifacetado em que, invariavelmente, se encontra uma miríade de regionalidades, sotaques, concepções, estilos de vida. Diz-se, por exemplo, que Nova Iorque tem quase tantos condutores siks quanto Nova Déli. Imigrou, não tem uma formação compatível com outra atividade? Não arrnja outro emprego? Sempre se pode recorrer ao bom e velho serviço de motorista de aluguel. Não se assuste se tiver que esclarecê-lo que o SOHO é para baixo da ilha e não tem nada ver com o East Side. E o inglês deles será interessantíssimo, posso assegurar... que você não entenderá nada além da segunda palavra.

Em todos os países que visitei, este grupo se mostrou bastante atencioso, levando sua profissão a sério o mais das vezes. Contudo, sempre existem os espertinhos que dão mau nome à categoria: em Paris um chinês resolveu me "levar para passear" e tentou dar uma volta, imensa e desnecessária, passando dando a volta na Place de la Concorde para ir ao Louvre. Neste ponto concordo com um dos personagens de Matrix que disse que "a língua francesa é ótima para insultos", principalmente quando se tem que dar a entender que se sabe, e muito bem por sinal, qual o caminho que deve ser feito. Friso, contudo, ser esta a única ressalva que faço ao "Taxi Parisien", que tem em sua folha serviços nobres à pátria, transportando soldados para o front de batalha na primeira guerra mundial. Em linhas gerais são mais atenciosos do que os espanhóis por exemplo, até mesmo por conta de uma espécie de estatuto que eles têm. Em minha viagem mais recente, na qual precisei arranjar uma "chaise roulant" para melhor locomover minha mãe, foram extremamente solícitos para acomodar a cadeira de rodas no porta-malas ? e atente para que não é qualquer "citroën quatre chevaux" que comporta este adereço.

Os taxistas portugueses são, como seus colegas cariocas, animados e bem falantes. Entusiasmam-se quando sabem que você é brasileiro e querem sempre saber o que está se passando "na terrinha, ora pois". De maneira semelhante aos demais patrícios, têm o raciocínio muito curto para humor e sarcasmo. Sabe aquela história de que português é burro? Não é ignorância: é ingenuidade. Evite as piadas que rimem com o "não pagamento" da féria eles simplesmente não entendem - levam tudo ao pé da letra.

Por seu turno, os profissionais na Itália são positivamente insanos. Asterix já dizia, com propriedade: "Ils sont fous, ces romains", o que, traduzido para o italiano fica mais divertido ainda - "Sonno Pazzi Questi Romani. Nada mais verdadeiro quanto ao tráfego de Roma. O condutor xinga, gesticula, pára o carro, bota meio corpo para fora da janela para discutir com seu "contraparte". E depois se compraz em esclarecer seus motivos e razões, das quais se encontra cheio. Estacionam onde querem, quando querem e acham ruim que qualquer outro faça o mesmo. Mas são muito bem instruídos quanto aos meandros da Cidade Eterna.

The Lurker Says "A man travels the world over in search of what he needs and returns home to find it." George Moore

agosto 27, 2003

The Lurker ainda no Rio (ou de onde menos se espera...)

Saindo da Casa da Ciência, local onde se realizava o seminário, entrei no shopping Rio sul e vi de relance uma pessoa que acreditei ser uma velha amiga, colega de universidade (uma pessoa simpática apesar de louca). Vinha em sentido contrário falando com um cavalheiro de, talvez, seus 40 em alguns anos. Expressava-se em francês, o que conhecendo-a não era necessariamente de se estranhar: filha de diplomata e tendo vivido no exterior nada mais razoável do que falasse um outro idioma. Não seria nem mesmo de se estranhar que tivesse aprendido árabe, dado que morou no Egito.

O tom da conversa não parecia necessariamente o mais tranqüilo. Isso também não é de se estranhar tendo em vista que o seu temperamento nunca foi muito calmo. Tive vontade de me aproximar e falar-lhe. Contudo o assunto parecia sério e achei melhor deixar passar. A curiosidade porém não me abandonou: o que fazia minha amiga falando com o francês? E porque estaria tão aborrecida (se é que estava aborrecida)?

Novamente vamos recorrer às maravilhas da tecnologia. Uma rápida busca na Internet mostra que ela se casou no início deste ano ou no final do passado, com um cavalheiro francês. Não tenho a menor idéia se seria aquele mas, com efeito, é uma possibilidade. No fim das contas achei o episódio bastante engraçado. Faz lembrar de outro encontro, absolutamente impensável, que tive com um amigo de muitos anos numa noite no aeroporto de Guarulhos, antes de uma viagem a NY. Quem poderia imaginar encontrar pessoas conhecidas em circunstâncias tão inesperadas?

The Lurker says: "I am not young enough to know everything." -- Oscar Wilde

agosto 26, 2003

The Lurker e a tecnologia da voz (ou de que adianta a velocidade, se você não tem nada a dizer?)

Finalmente rendi-me à tecnologia dos comandos de voz e adquiri um Via Voice da IBM. Confesso que tenho achado o programa bem eficiente, apesar de que muitas vezes é frustrante conseguir convencê-lo a aceitar os termos constantes de meu vocabulário. Além disso, ele tem o péssimo hábito de não aceitar as concordâncias como as faço, além de incluir artigos e pronomes sem ser solicitado. Apesar disso, minha tendinite e agradece, e muito, ter somente que corrigir o texto digitado ou ter que incluir uma eventual palavra que o limitado conjunto de informações existentes ou melhor, inexistentes em seu banco de dados desconheça.

Outra característica que reputo muito interessante é a capacidade do aplicativos em ler textos a partir de informações escritas. Por exemplo, posso pedir que ele leia um documento escrito por mim. É interessante, pois posso ouvir o texto escrito enquanto faço alguma outra coisa. Funciona como se alguém estivesse fazendo uma crítica para mim. Acredito inclusive que venha a contribuir para a melhoria de minha dicção, tendo em vista a necessidade de que pronuncie as palavras de maneira mais ou menos uniforme para garantir a qualidade da interpretação feita pelo sistema.

Os comandos de voz são eficientes, a interface IBM, como sempre é pouco amigável mais isso é superável. Talvez pouco amigável seja exagero, afinal conseguiu passar por todo o processo de que configuração em um período de menos de 1 hora, incluindo-se aí também o processo de ensino ao sistema para que reconheça minha voz. Em resumo, ainda tem muito que mas até o momento me agrada bastante, à exceção talvez a dos comandos diretos de voz que são tanto complexos para memorização.

The Lurker Says: “A horse may be coaxed to drink, but a pencil must be lead.” --Stan Laurel

And says it over (because it´s funny and sadly true, in a way) “Women and cats will do as they please, and men and dogs should relax and get used to the idea.” --Robert A. Heinlein
The LurKer warp zone (ou Beam me up, Scotty)

Bem, aqui estou eu de volta ao Rio, desta vez para uma conferência sobre políticas públicas em avaliação. Mais ou menos... a rigor somente duas das quatro palestras são realmente interessantes – uma por um professor americano e outra por um fancês. Foi bom para dar um lustro no ouvido, já que fazia tempo que não tratava nada na língua gaulesa. Mas o quente, para valer, foram os contatos que andei fazendo com o pessoal de Belo Horizonte e Juiz de Fora. Este último deve rimar com umas discussões muito interessantes para a tese, através de um sociólogo que trabalha por lá. Estamos inclusive com a idéia de fazer um encontro para discutir aspectos de nossos trabalhos que são um tanto complementares e juntar mais uma turma de pesos pesados nesta conversa. Só isso já valeu a viagem.

Enquanto isso em Gotham City... os contratos da equipe vem e vão. Na quinta-feira sou arrancado da palestra no final da tarde porque nosso gerente executivo devolveu os contratos de todo mundo para atualização do PHF. Corri de volta ao hotel para assinar tudo eletronicamente e devolver a ele com as correções pedidas. Na sexta à tarde liga-me minha assistente para dizer que um currículo, justamente aquele que negociei com o pessoal da área de contratos para que tivesse um salário um pouco melhor (vocês leram isso a algum tempo) foi devolvido por “inadequação da experiência ao salário pretendido”. Toca sair correndo para ligar para o pessoal e lembrar do que já havia sido acordado. E a falha não foi deles: o memorando que esclarecia tudo não chegou em tempo. Alguém entendeu que o contrato iria em papel, quando na realidade foi pela intranet. O principal é que pelo menos até agora vou conseguir manter minha palavra com o rapaz, apesar de quase terem botado ele para correr por causa de salário.

Quanto a isto é engraçado notar que a outra equipe (de pesquisa) acabou justamente de perder um bom estatístico (se bem que há quem diga que estatístico bom é estatístico morto :-) e bem treinado justamente por inabilidade de negociar o contrato. Como penalidade, tiveram que contratar um novo e isso ficou quase 30% mais caro. Para quem, como eles, anda curto de grana, foi um movimento nada interessante.

Em tempo: em sua próxima viagem não se assuste se tendo recebido sua passagem TAM e feito seu check in nesta companhia, você embarcar com uma equipe de terra e em uma aeronave Varig.

The Lurker Says: "Support bacteria. They're the only culture some people have."

agosto 18, 2003

The Lurker Radio (ou here we go again)

Estes períodos de "soltericie-provisória" que se abatem sobre mim com certa periodicidade agora, e por motivos os mais vários, sempre têm consequências sobre meu estado de espírito (a mais das vezes, nada interessantes). Considerando-se ainda o desaparecimento do monossílabo Si, que não se manifesta para coisa alguma já tem um tempo, a situação descamba do incômodo para o depressivo. Mas, também, fazer o quê...

Em homenagem aos deprimentes anônimos e depressivos conhecidos, segue...

Primeiros Erros
Capital Inicial
Album: Capital Inicial Acústico MTV



Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde estou
Meu destino não é de ninguém
E eu não deixo os meus passos no chão

Se você não entende não vê
Se não me vê não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende

Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas só chove e chove, chove e chove

Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros, oh

Meu corpo viraria sol
Minha mente viraria sol
Mas só chove e chove, chove e chove


Ps: - Sim, é a versão do Capital. Depressivo, ma no troppo... :-)

The Lurker Says: "Alguém teria um guarda-chuva?"

julho 30, 2003

The Lurker e as fraudes acadêmicas (ou "Caveat Emptor!")

Poucas coisas tem me tirado tanto do sério como corrigir provas. Convenhamos: a prova é um diálogo entre o professor e o aluno. O primeiro quer medir o que o segundo sabe. O segundo, quer se livrar da avaliação com o que sabe (e mesmo com o que não sabe). Diferente de muitos de meus colegas, eu acredito que “roubar” faz parte das armas disponíveis por parte do aluno. E impedir que isto aconteça é obrigação do professor, que dispõe também de suas armas. A regra do jogo funciona mais ou menos como a Convenção de Genebra: O prisioneiro de guerra tem o direito de tentar escapar e o carcereiro a obrigação de mantê-lo em reclusão.Da mesma maneira, o aluno tem o “direito” de tentar colar e cabe ao professor coibi-lo.

Por exemplo: no outro dia uma das turmas estava muito agitada com a prova de Matemática Financeira no segundo horário. Enquanto eu dava minha aula, alguns alunos se “preparavam” para a prova. Passando ao lado de uma aluna, notei que ela copiava, de um papel minúsculo, informações para sua carteira. Ato contínuo e sem maiores esclarecimentos tomei-lhe o papel da mão.

- Mas... Professor! O senhor não pode fazer isso!
- E o que você espera que eu faça? – respondi – Você sabe que não é correto o que está fazendo.
Aproximei-me então da carteira e, com um movimento rápido da mão, apaguei o que ela havia escrito.

- Ah, assim não dá! Disse ela.
- Você sempre pode reclamar com a coordenação de curso – respondi.

Os alunos que acompanharam a cena recolheram seus “bilhetes”. Os que não tinham bilhetes se limitaram a rir do infortúnio da colega.

Essa coisa de cola talvez seja um dos motivos pelos quais minhas provas são sempre discursivas: você tem que suar um pouco para me convencer de que sabe. Isso pode não ser necessariamente fácil, dado que minhas duas turmas comportam aproximadamente setenta alunos.

Pois estava eu a ler uma das provas quando me deparo com um texto muito parecido com o que havia lido em outra prova... parecido? Melhor idêntico... nahhh... ipsis literis seria mais adequado dizer. Parágrafos inteiros copiados de uma prova para outra. Bem, vamos agora descobrir quem é o autor(a) da brincadeira, quando descubro outra prova com o mesmo texto copiado. Muito bem, paciência tem limite: querer colar, tudo bem. Copiar o texto é burro, mas fazer isso DUAS vezes é apostar na minha incompetência. E aí já é acinte.

Mas então vamos ao trabalho dos alunos colantes, trabalho este cuja finalidade era justamente levantar a nota de quem precisava deste expediente. Pois não é que o trabalho também é colado? Só que desta vez da Internet. Com essa eu perdi a paciência. Ainda não decidi o procedimento, mas que isso não fica assim, ah, não fica!

The Lurker Says: "Cheat me in the price, but not in the goods."
-- Provérbio Britânico

The Lurker e a desabalada carreira (ou correndo mais que a Maureen Maggi)

Gente, que loucura está esse dia... Todos os projetos resolveram andar ao mesmo tempo. Parece que estavam todos na linha de saída e foi dada a largada. Nem bem saio do jurídico de um, liga-me a advogada do outro, pedindo material para ser juntado (sic) ao processo de Assistência Preparatória.

E caem os eucaliptos em sacrifício, tornando-se montanhas de papel para saciar a fome dos burocratas. Sofrem as impressoras em holocausto, submissas às inconstâncias e incongruências dos amanuenses.

The Lurker Says: Stay tuned. News at eleven.